Literatura Surda

 

Deaf Literature

 
Carolina Silveira[1]

Fabiano Rosa[2]

Lodenir Karnopp[3]

 

 

RESUMO

 

O artigo objetiva inicialmente fazer alguns apontamentos sobre o tradicional conto de fadas, Cinderela; em seguida apresentar a versão “Cinderela Surda” analisando o contexto lingüístico e cultural da mesma. O texto Cinderela Surda mostra ao leitor como esse tema é recontado pelos surdos, através da língua de sinais e a partir de uma experiência visual, com detalhes que o tornam verossível, ao mesmo tempo em que preserva sua magia e encantamento.

 

Palavras-Chaves: Surdos, Língua de Sinais, Cultura Surda,  Literatura Surda.

 

 

ABSTRACT

               

The article aims to present some topics about the tale story, Cinderella, and then to show a version of this story – Deaf Cinderella - in a different linguistc and cultural context.  The story “Deaf Cinderella” shows to the reader how the traditional tale story is retold  by deaf people who use signed languages.  The construction of the story was produced in a visual experience and there are details in the text that make it verisimilar and, at the same time, it has fascination and enchantment.

 

Key Words: Deaf, Signed Languages, Deaf Culture, Deaf Literature.

 

 

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A CINDERELA

 

“Há muitos prodígios de fato, mas, quanto às histórias que são contadas, pode ser que tais contos ultrapassem a verdade e, adornados por mentiras iridescentes, enganem as pessoas”.  Píndaro

 

A história da Cinderela é uma história muito antiga. Não se sabe exatamente onde surgiu, pois ela era uma história oral, contada e não escrita. Sabe-se que ela foi principalmente contada na Europa,  em “serões” noturnos, quando as pessoas se juntavam para ouvir histórias. Essa era a diversão da época, já que não havia luz elétrica, não havia TV, não havia cinema... Então contar histórias era alguma coisa muito importante, que distraía e agradava adultos e crianças.  Com o surgimento de escolas abertas a todos e a transferência de um número maior de famílias para os centros urbanos, o velho hábito de contar histórias correu o risco de desaparecer.  Coube então aos escritores coletar as narrativas orais e registrá-las no  papel, para que não se perdessem.  Com o tempo algumas dessas histórias se modificaram, mas sempre preservaram a fórmula do divertimento, magia e encantamento.  Hoje sua magia ressurge quando essas histórias são lidas e recontadas para as crianças.

Cinderela é um conto de fadas.  Os contos de fadas são muitos antigos e existem no mundo inteiro – na Índia, na China, no Japão, em lugares muito distantes.  Existem muitos contos de fadas, como o Gato de Botas, a Bela Adormecida, o Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel. Às vezes se encontram histórias muito parecidas, em lugares muito distantes: seus enredos se repetem em diferentes culturas e nos diversos continentes.  Todos eles têm final feliz e sempre apresentam a busca da felicidade, do amor, da riqueza... e sempre há dificuldades para serem vencidas. Os contos de fadas também têm sempre alguma “mágica”, alguma coisa “maravilhosa” que não acontece na nossa realidade, mas que traz o encantamento dos contos de fadas. Há animais que falam, existem fadas e bruxas com poderes extraordinários, sapos que se transformam em príncipes, etc.

Os contos de fadas continuam vivendo porque eles agradam nossa imaginação e nossos sentimentos. Sempre ficamos torcendo pela vitória dos personagens bons sobre os maus e vivendo com eles as dificuldades encontradas. Cinderela está entre as primeiras histórias que conhecemos na infância.  Cinderela lança sobre nós um encantamento inesquecível, com sua bondade, com a vitória do bem sobre o mal, com o triunfo dos humildes sobre os orgulhosos.  Cinderela conquista a felicidade só depois de superar muitos obstáculos e enfrentar duras tribulações.

Nem todos os contos de fadas têm fadas – elas são criaturas fantásticas, vivem na fantasia, assim como os gnomos e os duendes, que estão no folclore de muitos países, principalmente nas zonas rurais.  Dizia-se que elas eram espíritos, anjos decaídos, sobreviventes de uma raça extinta.  Achava-se que tinham pouca simpatia pelos humanos e que estavam sempre dispostas a se vingar de quem as ofendesse.  Os camponeses a chamavam de “boa gente” em sinal de respeito.  (Warner, 1999, p. 13)

Depois de existirem muito tempo como histórias orais, os contos de fadas começaram a ser escritos.   Perrault, no final do século XVII (1697), publicou os Contos da Mamãe Gansa, onde apareceram, pela primeira vez, histórias conhecidas até hoje, como Cinderela, Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, O gato de Botas, Barba Azul, etc. 

No século XIX, os famosos Irmãos Grimm, alemães, recolheram contos de fadas tradicionais junto com velhas pessoas que os sabiam e escreveram esses contos, fazendo muito sucesso. Em seguida, muitos outros pesquisadores também começaram a ouvir histórias do povo e escreveram.

Especificamente sobre a Cinderela, sabe-se que sua versão mais antiga é de uma história contada na China[4], onde os pés pequenos eram considerados um sinal de beleza.  A versão do francês Charles Perrault, de 1697, é que tem fada madrinha, carruagem-abóbora, e o sapatinho de cristal.  Nas versões anteriores, transmitidas oralmente, Cinderela recebe a ajuda de sua mãe, cujo espírito se materializa sob forma de  peixe, vaca ou árvore.  Ao criar a fada madrinha Perrault acrescentou um toque mais poético a essa tradição.

Na versão dos Irmãos Grimm, Cinderela não tem fada-madrinha. O texto é assim contado:  Um dia, quando já está sofrendo com sua madrasta e suas irmãs, ela pede para o pai trazer um galho de árvore. Ela planta este galho de árvore no túmulo de sua mãe e o galho se transforma numa árvore. Cinderela vai todos os dias rezar no túmulo da mãe e aparece um pássaro branco que atende seus pedidos. Quando aparece a oportunidade do baile, Cinderela diz para as irmãs que quer ir... e as irmãs, de maldade, despejaram uma bacia de lentilhas no meio das cinzas do borralho (algo assim como uma lareira) e disseram que ela tinha que juntar todos os grãos. Ela pede ajuda para as pombinhas e aves do céu, que ajudam a Cinderela.   Quando a madrasta e as irmãs saem para ir ao baile, a Cinderela vai até o túmulo da mãe, sacode a árvore e lá o pássaro branco joga um vestido lindo e um par de sapatinhos. Ela vai ao baile três vezes, faz o maior sucesso, mas sempre foge para o príncipe não descobrir onde ela mora. Mas na terceira noite, o príncipe joga piche (um tipo de cola) na escada e ela perde um sapatinho, que fica grudado no piche. Quando o príncipe foi procurar a moça cujo pé coubesse no sapatinho, a primeira irmã da Cinderela corta o dedão para caber no sapatinho... mas logo começa a cair sangue do sapato e ela é desmascarada. A segunda corta um pedaço do calcanhar, mas o sapato também começa a sangrar... e o príncipe devolve a moça.  Finalmente, se descobre que é a Cinderela a dona do sapatinho.  O final da versão de Cinderela dos Irmãos Grimm também é violento – no casamento da Cinderela,  as pombas que a ajudaram furam os olhos das irmãs que ficam cegas! Geralmente, não se conhece esta versão, porque por muito tempo se julgou que continha elementos muito violentos e agressivos para serem contados às crianças.

Existem muitas outras versões da Cinderela, com elementos mais modernos (Mastroberti, 1997, Cinderela 1993, Coleção Fantasia, entre outros). A própria expressão Cinderela passou a ser utilizada para aquelas moças que realizam um sonho de amor ou de sucesso muito difícil, geralmente através de um casamento.

A história da Cinderela pode ser recontada de muitas maneiras, conforme as culturas e as épocas. O importante é que ela apresenta a história da realização de um sonho de uma pessoa humilde, sonho que é aparentemente impossível!

 

CINDERELA SURDA

 

Como vimos anteriormente, contar histórias é um hábito tão antigo quanto a civilização.  Contar histórias é um ato que pertence a todas as comunidades, comunidades indígenas, comunidades de ouvintes, comunidades de surdos, entre outras.  Contar histórias, piadas, episódios em língua de sinais pelos próprios surdos em sua comunidade é um hábito  que acompanha a história dessa comunidade.

Com o objetivo imediato de registrar e catalogar em material impresso algumas das histórias narradas por pessoas surdas, estamos desenvolvendo um projeto de pesquisa que visa a investigação das práticas e processos que os surdos utilizam para contar histórias.  A concepção de leitura, análise e produção textual por sujeitos surdos é tratada e concebida como prática social de linguagem, ligada aos aspectos cultural, social, histórico e ideológico.

Primeiramente, para contextualizar o desenvolvimento da pesquisa, selecionamos alguns textos que foram lidos, discutidos e adaptados por universitários surdos.  No processo de recontar histórias para crianças surdas, em visitas à escolas de surdos da região metropolitana de Porto Alegre, os universitários surdos, contadores de histórias, transformaram um conto tradicionalmente voltado para ouvintes em uma história totalmente inserida no contexto cultural do surdo.  Cremos que tal adaptação dos textos seja fruto da necessidade que os contadores têm  de considerar os seguintes fatores (Karnopp 2002):

(a)     contexto social em que a leitura e o reconto de histórias acontecem;

(b)    os processos e práticas de leitura e do reconto de histórias;

(c)     propósito (objetivo) do reconto de histórias;

(d)    a relação entre aquele que conta uma história e aquele que a assiste;

(e)     questões da identidade do contador de histórias.

           

            Na análise de tais fatores, podemos observar os conteúdos psicossociais que são comuns, o que é mantido, o que é acrescentado, o que é desconsiderado, o que é adaptado e transformado para o contexto de uma outra cultura.  Na presente análise vamos investigar o reconto do texto de Cinderela Surda e as versões pelas quais passou o texto até o presente momento.

As práticas discursivas dos surdos, construídas a partir do diálogo e na tentativa de tradução de uma língua e de uma cultura para outra, implicam na interação, na construção de sentidos do texto.  Pessoas não constróem significados em um vácuo.  O uso da língua está inserido em contexto social, pois o texto é o resultado de processos e forças sociais que os produzem.  O reconto de Cinderela, considerando as condições de produção e recepção que o recriam, trazem à tona que essas condições são inseparáveis do local, condições sócio-históricas e institucionais em que os interlocutores estão situados.  Surdos recontam histórias para outros surdos e reconstróem através da língua e da cultura os sentidos veiculados pelo texto que serviu como ponto de partida para a criação de um outro texto.

Na análise dos processos e práticas da leitura e do reconto de histórias entre os surdos, observamos que freqüentemente o grupo de surdos que estava lendo o texto em língua portuguesa, indagava:  “como eu traduzo essa frase do português escrito para a escrita da língua de sinais?  Na análise dessas questões registramos uma negociação entre o grupo de leitores, incluindo a elaboração de propostas para a seleção de um determinado reconto.  Por exemplo, a negociação de que o reconto do texto apresentaria a luva rosa em substituição ao sapatinho de cristal,  pois na versão de Cinderela Surda as mãos que sinalizam estão em foco:

 

“A fada transformou a roupa simples de Cinderela em um lindo vestido de baile, colocou em suas mãos lindas luvas rosa, transformou a abóbora em uma carruagem (...)” (grifo meu). (Silveira, Rosa & Karnopp, no prelo).

 

Além das luvas rosa, há outros elementos adaptados: o sino pelo relógio da parede em que: 

“De repente, Cinderela olhou para o relógio da parede e viu que já era quase meia-noite. Com medo, ela fez o sinal de TCHAU e saiu correndo. O príncipe segurou sua mão e ficou com uma luva, enquanto ela tentava sair correndo.” (Silveira, Rosa & Karnopp, no prelo).

 

O reconto do texto Cinderela Surda carrega muitos sentidos. Estes são construídas através da organização do sentido do texto que, ao ser contado, aciona no receptor uma memória (BRANDÃO, 2000). Esta memória estabelece relações externas e internas com o mundo ficcional e com o mundo real.   Neste sentido, vamos registrar o processo pelo qual passou o texto impresso “Cinderela Surda”.

Assim como coube aos escritores coletar as narrativas orais e registrá-las no  papel, para que não se perdessem, os textos contados e recontados pela comunidades de surdos precisam ser registrados a fim de que possam ser preservados.  Não sabemos quem contou a história de Cinderela Surda pela primeira vez. Ela foi sendo recontada entre os surdos e nós resolvemos registrar e divulgar este belo texto.  Assistimos uma versão envolvendo o aparelho retro-auricular e outra versão apresentada na 47ª Feira do Livro de Porto Alegre por Carlos Alberto Goes.  A versão apresentada tem como ponto de partida esses textos, mas o texto impresso é de inteira responsabilidade dos autores.  Pesquisamos, lemos e discutimos o texto Cinderela (Coleção Clássicos de Ouro, Editora BrasiLeitura), incluindo outras versões e pesquisa na internet.

O livro Cinderela Surda foi construído a partir de uma experiência visual, com imagens, com a escrita da língua de sinais (SignWriting)[5] e com o texto em português, focalizando a cultura e identidade surda.  Cabe registrar que optou-se, no texto, que as palavras em letras maiúsculas representam os sinais, para que o leitor identifique diálogos em língua de sinais.  O texto em português assim ficou registrado:

“Quando era criança, Cinderela aprendeu a língua de sinais com seus amigos surdos nas ruas de sua cidade.

No palácio, o príncipe aprendeu a língua de sinais com o mestre Abbé de L’Epée, que foi contratado para educá-lo.

Cinderela era uma jovem surda, linda e bondosa. Sua mãe morreu quando ela era pequena. O pai de Cinderela casou-se novamente, ficou doente e, em seguida, morreu.  A madrasta era malvada e egoísta e tinha duas filhas que só sabiam mandar e nada fazer.  Cinderela era a única que trabalhava. 

Cinderela limpava e cozinhava, mas a madrasta e as irmãs nunca estavam satisfeitas. A comunicação entre elas era difícil, pois a madrasta e as irmãs só faziam poucos sinais.

Um dia, chegou uma carta.  Era um convite do príncipe para um grande baile, porque o príncipe queria encontrar uma moça para se casar.  A madrasta ficou feliz com o convite, pois queria que uma de suas filhas se casasse com (o dinheiro d)o príncipe.

No dia do baile, a madrasta vestiu as duas filhas com roupas bonitas, mas elas não ficaram bem.  Cinderela pediu para ir junto, mas a madrasta não permitiu.

Cinderela implorou:

- Por favor, deixe-me ir com vocês!

- Não, você não pode ir conosco! Você não tem roupa bonita! Disseram as irmãs.

- Tchau, Cinderela!

Todas elas saíram e Cinderela ficou triste, chorando. De repente, SURPRESA! Apareceu uma fada, sinalizando:

- NÃO CHORE, QUERIDA, SOU UMA FADA E QUERO AJUDÁ-LA. VOCÊ VAI AO BAILE, COM ROUPA BONITA, COM LUVAS ROSA, EM UMA LINDA CARRUAGEM COM CONDUTOR – disse a fada, em sinais, para a Cinderela.

Assim, a fada transformou a roupa simples de Cinderela em um lindo vestido de baile, colocou em suas mãos lindas luvas rosa, transformou a abóbora em carruagem, o gato em cavalo e o rato em condutor.

E a fada sinalizou:

- ATENÇÃO: À MEIA-NOITE VOCÊ DEVERÁ VOLTAR PARA CASA, POIS EXATAMENTE À MEIA-NOITE A MÁGICA ACABARÁ! AGORA VÁ E DIVIRTA-SE BASTANTE!

Cinderela chegou atrasada na festa e chamou a atenção de todos, principalmente do príncipe.

O príncipe foi ao encontro de Cinderela, estendeu a mão, convidando-a para dançar.

Cinderela sinalizou: 

-  SOU SURDA!

-  EU TAMBÉM SOU SURDO! – respondeu o príncipe.

Felizes, o príncipe e a Cinderela dançaram e conversaram a noite toda, sem perceber o tempo a passar...

De repente, Cinderela olhou para o relógio da parede e viu que já era quase meia-noite. Com medo, ela fez o sinal de TCHAU e saiu correndo. O príncipe segurou sua mão e ficou com uma luva, enquanto ela tentava sair correndo.

Os ponteiros do relógio se juntaram, marcando meia-noite.

Desesperada, Cinderela correu  para a carruagem.

- ESPERE, ESPERE!  Aqui está a sua luva.  – Sinalizou o príncipe.

Sem conseguir alcançá-la, ele viu Cinderela entrar na carruagem, que partiu em disparada.

No dia seguinte, o príncipe pediu que todas as casas do reino fossem visitadas, até que a moça surda fosse encontrada!  Os empregados do palácio procuraram muito, testando a luva em várias moças.  Já estavam cansados, até que bateram à porta da casa de Cinderela.

- Entrem, por favor!  Aqui temos duas moças surdas!  mentiu a madrasta.

As irmãs testaram, mas a luva não serviu.

O funcionário percebeu Cinderela na cozinha.

-  Quem é aquela moça? – perguntou o empregado.

-  Ela é apenas uma empregada surda! - disse a madrasta.

-  Sinto muito, senhora. É ordem do príncipe que todas as moças surdas do reino experimentem a luva. VENHA, MENINA! tocando em seu ombro e sinalizando.

- Todos ficaram surpresos quando viram a luva entrar, perfeitamente, na mão de Cinderela.

O Príncipe e a Cinderela casaram-se e foram felizes por muito tempo.”  (Silveira, Rosa & Karnopp, no prelo)

 

            No conto, observamos inicialmente a contextualização do aprendizado da língua de sinais por Cinderela e pelo príncipe.  Ambos são surdos e aprendem em diferentes locais a usar a língua de sinais.  Com a madrasta e as irmãs a comunicação é difícil, mas a fada obviamente sabe língua de sinais.

Outro aspecto cultural registrado, comum à comunidade de surdos e ouvintes, foi o final “Casaram e foram felizes para sempre” sendo substituído por  casaram-se e foram felizes por muito tempo(grifo meu).  Este final permaneceu com o objetivo de dar um tom mais realista ao texto.

Sobre as ilustrações, realizadas por uma das autoras deste texto, Carolina Hessel (surda, designer gráfica), temos os seguintes detalhes a registrar:


“Sempre quando a gente faz ilustrações de uma história, tem que decidir/escolher muitas coisas.  A história da Cinderela já é muito conhecida. Então tinha que fazer algumas ilustrações diferentes.

Sobre as personagens:  Resolvi fazer uma Cinderela ruiva... porque quase todas histórias geralmente mostram loiras, morenas, ultimamente castanhas, mas não vejo Cinderela ruiva, dificilmente.  Resolvi que as irmãs da Cinderela não não seriam tão feias, porque isso é um tipo de preconceito, achar que as pessoas “malvadas” são sempre feias.  Resolvi fazer a fada com um visual angelical, como uma pessoa mágica...  Então, ela está vestida de branco, com a varinha de condão, sem sapatos. Ao redor dela, tem um tipo de nuvem branca, iluminada, porque ela chega de uma maneira diferente... e para chamar a atenção sobre a personagem.  A madrasta, também não é uma pessoa muito feia. Só que eu a desenhei como uma pessoa mais idosa, com óculos de leitura.  Sobre o príncipe, resolvi manter o visual  de antigamente – o corte do cabelo e a roupa.

Sobre o ambiente/cenário:  O cenário só tem os elementos que são necessários... não quis fazer “poluição” visual. Assim para mostrar que Cinderela é órfã, coloquei só dois túmulos no cemitério. Para mostrar como ela trabalhava muito, mostrei Cinderela lavando louça e um balde com água derramada no chão. No final, o casamento é mostrado pela Igreja atrás dos personagens.

Sobre as expressões do rosto:  As expressões do rosto e os gestos são muito importantes para os surdos. Então procurei explorar bastante isso nos desenhos.  Há uma ilustração que mostra a Cinderela trabalhando e as duas irmãs derrubando o balde, para fazer mais sujeira, e a coitada da Cinderela ter mais trabalho. A expressão e os gestos das duas irmãs expressam a maldade delas, rindo da desgraça da Cinderela.  Também há a ilustração de quando a fada transforma as roupas velhas da Cinderela em um lindo vestido, em que a expressão da Cinderela é alegre.

Quanto à expressão facial, a ilustração que mostra o príncipe convidando Cinderela para dançar, apresenta ela com o dedinho na boca, toda envergonhada.  Ao fundo, em segundo plano, as duas irmãs têm expressão de despeito, de decepção.  A ilustração que mostra a irmã tentando pôr a luva evidencia uma expressão de esforço, enquanto a mãe fica torcendo para que ela consiga colocar e a outra irmã com uma expressão de espanto, de espera.  Enquanto isso, ao fundo, a Cinderela está limpando a casa.”

 

Na análise da relação entre aquele que produz um texto e aquele que o interpreta, um aspecto importante do contexto de situação tanto na produção lingüística quanto na produção das ilustrações, é o interlocutor.  Modelos atuais do processo de produção textual incluem ‘pensar sobre o interlocutor’ como um elemento deste processo.  Tais influências aparecem no contexto cultural de interação entre os interlocutores.  Assim, a produção do texto considerou a complexidade temática e a complexidade lingüística do mesmo, pois o reconto de histórias de surdos universitários para crianças do ensino fundamental teve a seguinte preocupação:  para quem será recontada a história?  Pragmaticamente, o texto estaria sendo produzido para quem?  O pressuposto de quem conta para quem foi intuitivamente considerada pelos contadores de histórias, adaptando parcialmente o tema e a língua ao interlocutor.  A negociação seguiu a seguinte intuição:  adequação à situação.

O último aspecto a ser analisado refere-se a questões da identidade daquele reconta histórias.  Avaliamos ser importante considerar o contador de história e sua identidade.  Como o contador de histórias sentiu-se face ao texto recontado, como procurou representar-se no texto, como procurou recontar aquilo que foi construído no grupo e que neste segundo momento foi recontado pelo indivíduo.  Tais aspectos estão sendo investigados no sentido de contribuir para uma descrição das questões da identidade daquele que recontou um texto.  Neste sentido, o texto “Cinderela Surda” é uma leitura registrada a ser publicada.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. Campinas : Unicamp, 2001.

DUCROT, Oswald. O Dizer e o Dito. Traduzido por Eduardo Guimarães. São Paulo: Pontes, [1987]. Tradução de Lê Dire et lê Dit.

GRIMM, Jacob, GRIMM, Wilhelm.  Cinderela.  Tradução Verônica S. Kühle.  Ilustrador Bebel Braga.  Porto Alegre:  Kuarup, 1985.

KARNOPP, Lodenir Becker.  Aquisição Fonológica na Língua  Brasileira de Sinais: estudo longitudinal de uma criança surda.  Porto Alegre, PUCRS: Tese de Doutorado, 1999.

KARNOPP, Lodenir B. Língua de sinais e língua portuguesa:  em busca de um diálogo.  Fórum Letramento e Minorias.  Apresentação Oral.  Piracicaba, Março, 2002. (no prelo)

MAINGUENEAU, Dominique. Termos-Chave da Análise do Discurso. Traduzido por Márcio Venício Barbosa e Maria Emília Amarante Torres Lima. Belo Horizonte : UFMG [2000]. Tradução de Lês Termes Clés de l´Analises du Discours.

ORLANDI, Eni Ouccinelli. Análise de Discurso : Princípios e Procedimentos. Campinas : Pontes, 2001.

SILVEIRA, Carolina, ROSA, Fabiano, KARNOPP, Lodenir.  Cinderela Surda.  (No prelo)

VON FRANZ, Marie-Louise. A Interpretação dos Contos de Fadas. Traduzido por Maria Elci Spaccaquerche Barbosa. São Paulo : Paulus, 1990.

WARNER, Marina,  Da fera à loira.  Sobre contos de fadas e seus narradores.  São Paulo:  companhia das Letras, 1999.



[1] Carolina Silveira shcarol@terra.com.br - surda, designer gráfica (ULBRA), professora da Escola Frei Pacífico.  End:  Rua Nilo Peçanha, 1452/ 301  Porto Alegre, RS. 

[2] Fabiano Rosa fabisouto@hotmail.com – surdo, alagoano, atualmente residindo em Canoas, RS, pesquisador e estudante de Pedagogia da ULBRA.

[3] Lodenir Karnopp  Karnopp@cpovo.net – ouvinte, doutora em lingüística e professora da ULBRA.  End:  Rua Cel João Corrêa, 190/ 422 – 91350-190 Porto Alegre, RS, Tel (51)33419683.

[4] A Cinderela Chinesa: Yeh-hesien.

“Quando sua mãe morre, sendo seguida logo depois pelo pai, a co-esposa deste começa a maltratá-la e a proteger a própria filha.  Um peixinho dourado mágico aparece num lago e fica amigo de Yeh-hsien.  Quando a madrasta malvada descobre essa fonte de consolo de sua odiada enteada, mata-o, come-o e esconde os ossos “sob a colina de esterco”.  Quando Yeh-hsien, sem saber de nada, chama o peixe no dia seguinte como era seu hábito, um feiticeiro desce do céu e lhe diz onde encontrar os ossos.  “Pegue-[os] e esconda-os em seu quarto.  Para ter o que desejar, basta rezar e pedir a eles...” Yeh-hsien obedece e percebe que não está mais sofrendo de fome, sede ou frio – os ossos do peixe passaram a cuidar dela.  No dia do festival local, a madrasta e a meia-irmã ordenam que fique em casa, mas ela espera que partam e, então, com um manto de penas de martim-pescador e sapatos de ouro, vai ter com elas no festival.  Sua irmã a reconhece, Yeh-hsien percebe, foge e perde um sapato de ouro.  Alguém o acha e o vende para um comandante local:  “era uma polegada menor do que o sapato da mulher que, entre elas, tinha os pés mais pequeninos.  Ele ordenou que todas as mulheres de seu reino o experimentassem.  Mas o sapatinho não serviu em nenhuma delas.  Era leve como penugem, e não fazia ruído nem quando pisava sobre pedras.”  Yeh-hsien se apresenta, levando consigo os ossos de peixe, e torna-se a “principal esposa” na família do rei.  Sua madrasta e irmão são apedrejadas até morrerem.”  (Warner, 1999, p. 234-5)

[5] Maiores informações sobre a escrita da língua de sinais, consultar o site http://www.signwriting.org/