Migração eE Formação da Identidade:  o caso “Japonês” no Pará-Br

 

Migration and Identity Formation: the “Japanese” case In Pará-Br

 

 

Manoel Alexandre Ferreira da Cunha

Francisco Rodrigues da Silva Neto

 

 

RESUMO

 

O universo deste trabalho envolve as cidades do Pará-Br, região onde inicia-se um fluxo migratório de “japoneses” desde 1928. Inicialmente vindos para atividades rurais, posteriormente, fizeram um processo de migração interna em direção a dois grandes centros: Belém/PA e São Paulo/SP. Metodologicamente o trabalho utiliza levantamentos, documentação impressa, observação e entrevistas com informantes: estudantes, comerciários, profissionais liberais, entre outras categorias. Observa-se a problemática do migrante no que diz respeito aos condicionamento da cultura de origem, a “ japonesa”, seja no caso do migrante original, seja dos seus descendentes, que a cada geração recebe uma denominação diferente: issei, nissei, sansei ou yonsei ou ainda mais recentemente gossei. Assim, geracionalmente há uma reelaboração no sentido de assumir uma nova identidade, a brasileira, sem deixar de possuir elementos da cultura de origem como: restaurantes, comércio, publicações direcionadas a comunidade nipo-brasileira, etc. Levando o migrante e seus descendentes a elaborarem estratégias de participação na cultura brasileira. Montando, assim, um vínculo onde “brasileiros e japoneses” participam conjuntamente e a cultura brasileira, por sua vez, amplia-se e incorpora elementos da cultura nipônica. As estratégias do diálogo entre as duas matizes redesenham a variabilidade e a diversidade do Brasil.

 

Palavras-Chave: Imigração – Identidade – Japoneses – Amazônia –Diversidade.

 

 

 

ABSTRACT

 

The subject of this present work envolves cities of states of Pará (Brasil), region where began a ammigratory flux of japanese people since 1928. At first they cama to develop rural activities, later. These immigrants did na internal immigration heading to two big clerters : Belém/PA and São Paulo/SP.  Mannerely the work uses surveying, printed documents, observaations inloco and interviews with informers: students, business workes and other categories.  We can observ the migrant problems about their original cultural  condicionalment, it doesn’t matter if they are the first-came immigrants of their decendants for cade generation has as denomination: issei, nissei, sansei or yousei and actually we have the fifth generaation; gossei.  So, generacionally we have a re-elaboracion in the meaning of assuming a new identity, the Brazilian one, without forgeting their original culture with: restaurants, commerce, specific publicacions to nipo-brasilians and japanese people “participact together and the Brazilian culture enlarge  and incorporate japanese cultural elements. The sharing strategies between two shades re-draw the variability of Brazil culture.

 

Key Words: Immigration – Identity – Japanese – Amazon - Diversity

 


Este trabalho aborda aspectos da imigração japonesa para o Estado do Pará-BR, especificidades  do migrante japonês, um conflito expresso pela posturas ao nível das três gerações chamadas de issei, nissei, sansei, no que diz respeito a continuidade de valores da cultura original, japonesa. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, surgem no espaço socio-cultural paraense uma série de atividades cuja matriz é a cultura e a prática japonesa, entre elas as relacionadas com a alimentação e a culinária, etc.

Ogawa (1981), diz que “Praticamente inexistia um elo cultural entre as duas nações” (Ogawa, 1981, 23), no caso Brasil e Japão, e em seguida escreve, “A alimentação o vestuário, o idioma, a religião, a moradia, o clima , tudo muito distinto, sem contar com a diferença fundamental dos valores.” (ibidem). A outra diferença, que continua nas seguintes gerações, é a que Ogawa chama de “o estigma do corpo” , caracterizado pela inexistência da prega epicântrica (dobra) nos olhos das populações de origem mongolóide.

O primeiro grupo de imigrantes japoneses chegou ao Pará em 16 de Setembro de 1929, dirigindo-se para a colônia de Tomé-Açu, distante de Belém 230km, (MARUOKA, s/d). Owake  diz que em 1930 os japoneses, em Belém, eram apenas funcionários consulares e uns poucos plantadores de  hortaliças, assim “Éramos alvo de curiosidade e os moleques nos caçoavam chamando-nos de china e macaco.” (apud Maruoka, 147).   Igachi, nissei nascido em São Paulo e que emigrou para o Pará, narra que na década de 50 ao visitar o Estado do Espírito Santo, com sua família, os moradores locais, vinham-os olhar, com curiosidade,  no hotel onde estavam hospedados e perguntavam se eram atração de um circo que estava na cidade (Entrevista, 11.10.02). Isto demonstra a distância entre os dois grupos, os brasileiros e os japoneses emigrados e seus decendentes.

A migração para o Pará ao dar-se ao final da década de vinte , insere-se  na política expansionista japonesa realizada através de companhias de colonização, que compram terra, loteando-as e propiciando a infra-estrutura  para a instalação de pequenos proprietários.  Isto foi diferente da primeira migração para o Sudeste ocorrida no séculoXIX, que decorreu da crise do setor agrário no Japão  e do processo de urbanização e industrialização, chamado de reforma “Meiji” (SANO, S/D, 24).

Em 1923  o governador do Pará, denominado Souza Castro envia uma petição ao embaixador do Japão no Rio de Janeiro, solicitando  imigração japonesa e oferecendo  500.000 hectares de terra na bacia do Rio Capim-PA. Em 1924 chega uma “Missão de Pesquisa Fukurara”,  para examinar essa região, concluindo pela insalubridade, falta de aptidão agrícola e de dificuldade de transporte para a área. O governo do Pará autoriza a pesquisa de outras áreas, assim procedendo a Missão, concluindo por selecionar uma área no rio Acará . Nessa fase o Estado japonês está preocupado com a formação de um sentimento anti-nipônico no exterior ao mesmo tempo incentiva empresários na busca de novos mercados (Maruoka, 46, 47).  Assim, funda-se a Cia. Sul Americana S.A. em 1928 para “colonização do terreno... com auxílio do capital, da técnica e da mão de obra japonesa” (Ibidem). O primeiro contigente de 189 pessoas  chega a Belém, a bordo do Manila Maru, em 16 de Setembro de 1929 (Ibid, 50). Antes, em 1926 já haviam comprado 270.000 hectares de terra em Castanhal, também mostrado interesse em terras em Monte Alegre e visitado o Estado do Amazonas que oferecera semelhante proposta de concessão de terra, para também verem a possibilidade de plantação do guaraná.

A característica  da presença japonesa no Pará e possivelmente na Amazônia é ter se estabelecido em núcleos coloniais agrícolas com preponderância ou quase exclusividade de população japonesa  originária. Nessas área tentaram desenvolver culturas que fossem  rentáveis do ponto de vista econômico, sendo os responsáveis por uma série de plantas transplantadas para o Brasil, como a juta indiana, a pimenta malaia e o mamão havaiano. Também contaram com bastante apoio oficial seja do Estado japonês e brasileiro, seja das empresas de colonização. Mesmo porque se articularam politicamente  para ter esse apoio. Ao mesmo tempo, ao longo desses anos organizaram-se em cooperativas, fato que lhes propiciou o desenvolvimento de atividades agrícolas e de comercialização rentáveis do ponto de vista econômico.

No Acará iniciaram com o cultivo do cacau, do arroz, feijão, algodão, tabaco, cana-de-açucar, mandioca, ao mesmo tempo em 1931  organizam a possibilidade de plantar e comercializar hortaliças, iniciando experiências com o repolho e plantando tomate, pimentão, pepino, etc.

Essas atividades conseguiram manter a Colônia durante o período inicial. De acordo com  artigo de Orlando Sampaio Silva (SILVA; 1978) à princípio os imigrantes,  fracassaram com cultivo do cacau pelas dificuldade das técnicas empregadas e pela presença da malária fez com que muitos imigrantes se afastassem de Tomé-Açú, os que ficaram dedicaram-se a plantação do tipo “queimada”, plantando arroz e verduras. Esse insucesso relativo levou  a uma das primeiras “dispersões” dos migrantes japoneses no sentido de desenvolverem atividades autônomas ao projeto “imigraçãs-colonizãação”. Em geral eles migravam  para  as redondezas de Belém  onde posteriormente  vieram a constituir alguns núcleos como os do Tapanã, Coqueiro e  Ananindeua. Aliás, os primeiro japoneses a chegarem a Belém, desceram os Andes vindos do Peru., em fuga, aqui chegando em 1916. Entre estes o casal Kawmoto que fixam-se no Una, sendo os primeiros a cultivarem hortaliças em Belém (TUTSUMI, apud Maruoka, 126). Em geral os que saiam das colônias, por desistência pessoal ou mais raramente por fuga, dirigiam-se em sua maioria para os arredores de Belém. 

Durante a segunda guerra os “japoneses” que estavam  nas cidades  foram conscritos nas colônia, mais especificamente  a do rio  Acará que chamava-se Tomé-Açu, instituída  como “campo de  concentração dos “japoneses”. Passada a guerra, em 1947 introduz-se em Tomé-Açu o cultivo da pimenta  que dez  anos depois de duas mudas que vingaram quando trazidas da Malásia, multiplicara-se  para 820.000 pés, com uma produção de 2.300 toneladas (MARUOKA, 89).  A pimenta que obtinha alto preço no mercado internacional é plantada nas diversa colônias do Pará e origina uma outra expansão de núcleos ou de indivíduos de origem japonesa  para outras regiões do Estado como Curuçá, Vigia, etc. A pimenta permite um outro nível de relacionamento da comunidade “japonesa” com a brasileira e entre ela, pela criação em  1958 da Associação Pan-Amazônia Nipo-Brasileira com sede em Belém, incorporando uma anterior  Associação dos Japoneses do Pará, fundada em 1952. Em 1963 o conselho da Associação coleta fundo para construção de Centros que se tornariam futuras Associações em Tapanã, Coqueiro, Ananindeua, Benfica, Trampioca, Sta. Isabel, Moema, Castanhal, Capanema, Ourém, Guamá, Santarém, Alenquer, Monte alegre, Juruti, Oriximiná, Óbidos, Marajó, Altamira, Acará e Tomé-Açu (MARUOKA, 97), mostrando como de um núcleo original a colonização japnesa expandira-se por vinte três  núcleos, incluindo Belém, em 34 anos após a  chegada dos primeiros migrantes.

Em 1969 uma bactéria chamada fusarium ataca os pimentais, devastando a cultura em todo o Estado, presionando a migração de “japoneses” das diversas colônias e principalmente de Tomé-Açu. No sentido de buscar novas áreas que fossem imune a praga , eles migram para  outras regiões do Para ou então mudam de atividade vindo para Belém. Ao mesmo tempo as enchentes do Amazonas devastavam as culturas de juta, afetando a colônia de Santarém, levando a maior dispersão e a necessidade de inserirem-se em espaços já ocupados pela população brasileira. Para Koyama (1980:19) a “busca de diversificação” a partir de 1970, fora iniciada pela queda da produção da pimenta-do-reino, provocada pelas doenças “mosaico” e “pepino”, que fez arrefecer o entusiasmo que reinava na colônia.

Em 1974  os “japoneses”  estavam  desenvolvendo outra cultura comercial em substituição à pimenta, era o cultivo do mamão havaiano ou papaia, cujas sementes haviam sido trazidas em 1970 por um religioso chamado  Shirakibara  (MARUOKA, 101). Posteriormente  eles conjugaram  a culturas do melão e da acerola, esta inicialmente exportada com sucesso para o sul do país. Outra atividade que sofreu grande incremento, foi a criação de frangos confinados em granjas. 

Durante estes anos, os imigrantes japoneses tiveram sua identidade marcada por suas diferenças sócio-culturais com a sociedade brasileira. O parâmetro empregado dessas diferenças baseia-se na distância geográfica, e cultural entre o grupo imigrante e a sociedade receptora. Principalmente por não estarem interessados a priori na integração à sociedade nacional, dada a intenção em acumular um dinheiro razoável e retornar ao Japão, segundo pensamento recorrente entre os imigrantes. Para a sociedade nacional, eles [os japoneses] são diferentes, estranhos, como se pode perceber na passagem que se segue:

 

“Japonês é como óleo na água: não se mistura”, ou “Inteligência viva, sóbrios, dedicados ao trabalho, disciplinados desde a tenra idade”, ou ainda “Os japoneses, como elementos úteis ao trabalho do nosso Estado [São Paulo], têm qualidades que nos obrigam a um trato preferencial.” (Crissiuma Apud In: SAKURAI. Op. cit)

 

A Associação Pan-Amazônica de certa forma, na expressão de Geertz (1997), reproduz o centro exemplar, a  Associação Central Nipo-Brasileira fundada em 1932, tendo com um do seu objetivos, lançar os “alicerces para o desenvolvimento da amizade nipo-brasileira na amazônia (Maruoka, 129). Neste sentido as duas etnias, a nipônica e a brasileira, são vistas como constrativas, ainda dentro da proposta política traçada pela sociedade japonesa em relação à colonização de regiões exteriores a partir da década de 20 do século XX. Neste sentido as palavras de Tadao Umezao, superintendente do Museu Étnico Nacional, em 1978 no Simpósio sobre Emigração Japonesa no Exterior, diz que “Os países do Novo Mundo... chegaram ao que são, hoje, pelo esforço dos emigrantes japoneses por menor que seja” (apud Maruoka, 108).

É este modelo de relacionamento do imigrante japonês com a cultura envolvente que parece  estar em crise hoje. De acordo com um estudo realizado por Yumi GOSSO (1997:15. Op. cit), atualmente, a realidade da comunidade nikkei de Belém torna-se preocupante à medida que os descendentes de terceira e quarta geração, sansei e yonsei, respectivamente, deixam de se interessar pela cultura de seus avós ou bisavós, problema esse que há tempos gerou certos conflitos dentro da colônia pelo fato de que uma pequena parcela de imigrantes quererem a rápida integração a cultura nacional brasileira, enquanto que um outro grupo mantinha-se firme em seguir seus costumes trazidos do furusato (terra natal).

Segundo Handa (1987:720-21), no período anterior a II Guerra tinha por ideal de educação formar brasileiros – nisseis – íntegros com profundo aprendizado da cultura japonesa, contudo os resultados não foram os almejados, dada a situação que os jovens nisseis tiveram que enfrentar na prática. Haviam famílias que, no entanto, ignoravam estes ideais e educavam seus filhos totalmente à japonesa levando-os a encarar a vida desta forma. Levando, dessa forma, os nisseis a apreenderem o yamatodamashii, o espírito japonês, principalmente os que cursavam acima do ginasial, e portanto, os que mais estavam em contato com os não-nikkeis, passaram a não entender este “espírito japonês”, assim como, em colocá-lo em prática no Brasil, como exemplo o autor cita o sentimento de amor cultivado pelos japoneses que diferencia-se do brasileiro, o que levou estes nisseis a enxergarem suas vidas com os olhos de um brasileiro. Os pioneiros da imigração trouxeram a imagem do ser divino que representa o Imperador, e nas escolas era ensinado o yamatodamashii e a história a partir da origem mitológica, na qual o imperador era descendente direto dos deuses, essa imagem era a qual os imigrantes queriam repassam aos nisseis juntamente com o que seria “bom japonês”. O sentimento que deveriam apreender de “bondade e integridade”, baseava-se exclusivamente do ponto de vista japonês, deveriam estar na medida certa para agradas aos japoneses. Contudo, ao requerer um brasileiro a partir destes parâmetros significaria “saber falar português fluentemente”, e “conhecer bem o Brasil”, daí surge ainda segundo Tomoo Handa um ponto problemático, pois, conhecer bem o Brasil seria: não conhecê-lo teoricamente mas se passasse a ser um “bom entendedor dos hábitos e costumes” seria considerado “abrasileirado”, poderia estar desclassificado da categoria de “bom brasileiro”, assim como, se amasse o Brasil como sua pátria. Em síntese, o “bom brasileiro” para os isseis seriam os nisseis que se comportassem como japonês e dominassem o português.

Numa edição comemorativa aos 70 anos de Imigração Japonesa para a Amazônia, editada pela APANB tendo como organizador Yoshio Maruoka (2002:64. Op. cit) O autor refere-se a educação, dos filhos dos imigrantes vindos para as colônias localizadas no Estado do Pará, que segundo o presidente da Companhia de Imigração (Nantaku Nojio Shikenjo), Sr. Hachiro Fukuhara, decidiu-se seguir o ensino dos jovens descendentes aos moldes nacionais brasileiros a preocupação que a Companhia de Imigração (Nantaku) tinha com a educação dos filhos dos emigrantes fora solucionada em 1933 quando a Nantaku convida Tsuyoshi Maru para ocupar o cargo de chefe do Departamento de Educação de toda a colônia. (...) A diretriz do Presidente Fukuhara para a educação dos filhos estava em fundamentar a instrução segundo moldes nacionais do Brasil. Assim, solicita para a escola primária da colônia, a nomeação de professor formado por Escola Normal. A professora Nídia Barreto de Almeida é então nomeada e a Companhia complementa o seu salário para dar-lhe boa acolhida. Constitui também a Associação de Pais para a Educação Japonesa. O professor Maru, contando como ajudantes as senhoras Ai Nishio e Suwa, começa a dar cursos de japonês duas vezes por semana em uma sala de aula construída em uma parte do depósito [Nantaku]. Segundo o contexto político da época, Hisae Sakiyama defende a decisão pela fixação definitiva [dos imigrantes em terras brasileiras]. Apela para a importância da pátria para as crianças nascidas aqui. Recorda que o Brasil é a Pátria querida para os que aqui nasceram, da mesma forma como é a pátria de origem para eles. Contudo, em 1943 a língua dos países inimigos é banida, incluí-se a língua japonesa e as escolas de ensino desta. Durante os anos de 1943 a guarda metropolitana está presente em Tomé-Açú e efetua uma busca de porta em porta. Quase todos os documentos escritos em língua japonesa são apreendidos. Somente em 1952 restabelece-se as relações diplomáticas entre o Brasil e o Japão e uma nova leva de emigrantes é enviada para o Brasil. Para a seleção, o candidato deveria submeter-se a uma prova escrita e oral, onde esta constava dentre outras questões como o pretendente pensava em educar os filhos, se conseguisse emigrar.

No ano de 1969 a Associação Pan-Amazônia Nipo-brasileira (APANB) é reconhecida como sociedade de benefício público e inaugura-se o Hospital Amazônia. A fundação do Amazon Country Club em 1974. O que facilitaria a convivência e o intercâmbio entre os membros da colônia japonesa da região metropolitana de Belém e de outras localidades próximas. Mas, ao mesmo tempo, como mostramos anteriormente a Associação é a representação de um modelo pós década de vinte que constrata étnicamente nopônicos e outros.

 

“DE MÃOS DADAS FORMANDO A VITÓRIA RÉGIA”

 

As tensões geradas dentro da própria colônia mostram a dificuldade que seria para os mais conservadores se integrarem à cultura brasileira, o que levou a uma série de intrigas entre os compatriotas. Os jun-nisseis[1] e nisseis, cujos pais eram jun-nisseis, travavam amizades com os poucos brasileiros dos núcleos de colonização no Pará, estudavam português na escola, cantavam músicas brasileiras, manejavam o português com razoável habilidade e tinham passado a entender melhor o modo de ser dos brasileiros (Entrevista-2). Para um melhor entendimento, deve-se destacar que os nisseis acabavam sendo divididos em dois tipos: 1) os que tinham os pais vindos do Japão já adultos e com isso ensinavam seus filhos aos moldes da cultura japonesa; 2) tinham pais vindos ainda em tenra idade para o Brasil e estes foram criados aos moldes nacionais brasileiros o que posteriormente os tornou relativamente mais flexíveis com seus filhos que não enfrentaram, ou de forma mais amena o impacto cultural de ter o ensino japonês dentro de casa e na rua uma outra realidade, a brasileira.

Torna-se evidente a contribuição trazida pelos imigrantes japoneses à construção ou à reformulação da cultura nacional brasileira, assim como a introdução de valores e costumes brasileiros aos hábitos japoneses. Prova disso são os conflitos gerados dentro da própria colônia, posto que existiam os que preferiam uma integração mais acelerada aos costumes brasileiros enquanto que por outro lado os mais nacionalistas achavam que deveriam continuar fiéis a Japão, fato este que com o passar dos anos sabemos que tendeu a ser minimizado, um dos principais motivos foi a derrota do Japão na II Guerra Mundial.

As aptidões e perspectivas dos jovens nikkeis, serão analisados a partir de um estudo feito sob encomenda da APANB, realizado pela Psicóloga e mestranda Yumi GOSSO durante Novembro de 1996 e Fevereiro de 1997. Este estudo nos parece relevante pelo fato de podermos observar de que forma vem se desenvolvendo a integração do nikkei à sociedade brasileira, que por este motivo, vemos o desinteresse por parte deles em cultivar as tradições de seus antepassados à medidas que os anos passam, podemos exemplificar os resultados destas pesquisas com a seguinte passagem:

 

"(...) o número de desistências, tanto para a língua japonesa como para a inglesa aumenta no 2º grau, provavelmente isto se deve à preparação para o vestibular. Nota-se, porém, que o número de estudantes de língua japonesa é bem inferior ao de estudantes da língua inglesa (considera-se àqueles que freqüentam cursos específicos de línguas). Já neste nível existem sete estudantes que concluíram o curso de língua inglesa e dois, da língua japonesa" [2]. Ver GOSSO, 1997 Op. cit.

 

Temos ainda outros relatos orais trabalhados pela autora (pg. 16), em relação ao interesse do nikkei em estudar o idioma japonês: “(...)meus filhos não sabem falar nada e nem entendem japonês. Mas sempre quiseram estudar e eu acho isso importante porque é a nossa cultura(...)”, depoimento de uma mãe que revela o desejo em manter os traços culturais. Assim como uma outra mãe: “(...)minha filha sempre quis estudar japonês e até começou a estudar, mas a mensalidade ficou muito cara e nós não tínhamos condições de pagar. (...)”. É interessante uma reposta dada por um entrevistado quando indagado se havia algum estudante em sua família: “(...)desde que papai morreu, todo mundo parou de estudar(...)”, o que nos mostra o quando difere os aspectos culturais ainda hoje entre os dois países.

 

“FORMANDO A VITÓRIA-RÉGIA”

De acordo com Koyama, após ter se estabelecido uma sólida base econômica, era natural que se desenvolvera-se as atividades culturais, respeitando os gostos e níveis de classe, formou-se, então um mundo isolado, não só geograficamente mas culturalmente, a única via de acesso a Tomé-Açú era fluvial. Liam-se revistas e jornais vindos do sul do país e mesmo do Japão, praticavam baseball e majãn, reuniões sociais em que cantavam as melodias do Japão, conversavam e comiam as comidas típicas da culinária nipônica. Fora a partir destas reuniões socias que surgiram as várias Associações Nipo-brasileiras hoje existentes, como no próprio caso da APANB que nasceu a partir de uma destas reuniões como podemos constatar no livro editado em comemoração aos 70 anos da imigração japonesa para a Amazônia, organizado pelo Sr Yoshio Maruoka atual presidente da APANB.

Durante o ano algumas atividades sócio-culturais são promovidas pela APANB como o Dia do Ancião, Undo-Kai (Gincana para jovens e crianças), Festa Junina, mas é a Semana do Japão (Nihon Shukan), ou Matsuri (Comemoração, celebração, festa), que via de regra acontece no mês de Agosto ou Setembro, tem-se uma maior divulgação ao público em geral, pois, é oferecido aos interessados nikkeis ou não-nikkeys, vários cursos e oficinas como: ikebana, shuji, origami, bon-odori, ryori[3] e sempre procura introduzir novos cursos para possibilitar um melhor intercâmbio entre os próprios nikkeis e não-nikkeis, haja visto que, estes cursos e oficinas são abertos a qualquer pessoa. Tive que, segundo Malinowski, aprender a comportar-me como eles e desenvolver uma certa percepção do que eles acham o que seja “boas” ou “más” maneiras de acordo com a etiqueta japonesa. São expressões culturais recorrentes no Japão e as quais não foram esquecidas pelos imigrantes, segundo Koyama. No campo religioso, a presença de várias “novas religiões”, segundo o autor, como no caso da Seicho-No-Ie, Sookagakkai, PL [?], entre outras tem como papel difundir, de certa forma, o “espírito japonês” articulando extraordinariamente os japoneses dispersos e simpatizantes promovendo reuniões semanais e mensais fazendo-os comungar de um mesmo espírito, sendo que estas religiões geralmente são resultado de uma mescla de várias religiões tradicionais que em maior ou menor grau contribuíram para a formação do yamatodamashii.

 

“A VIDA CONTINUA E OS JOVENS PRECISAM DE ‘EMPURRÕES’”

 

Mesmo com uma série de eventos direcionadas a comunidade nikkei de Belém, a participação dos jovens ainda mostra-se restrita, e segundo Ennes (2001:120-1), ao estudar o caso de Pereira Barreto, interior de São Paulo, destaca que o movimento dekassegui[4], surgido principalmente a partir da década de 80, levou a um decréscimo dos eventos promovidos pela falta de pessoas que ficassem responsáveis da organização, pois, os mais idosos ficam impossibilitados de desempenhar tal função.

Em Belém o Festival de Verão (Matsuri), realizado em Agosto, incorpora os vários elementos da cultura japonesa, desde os cursos oferecidos as danças que são bastante apreciadas pelos não-descendentes, todas as gerações podem ser vistas durante as comemorações da Semana do Japão (Nihon Shukan), conjuntamente com os membros da comunidade nikkei de Belém, podemos encontrar os não-descendentes que participam da festa e às vezes dos cursos oferecidos (Caderno de Campo).

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

BENEDICT, Ruth. O Crisântemo e a Espada. 3ª Edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002

Dicionário Japonês-Japonês. Tchyogakku – Kokugo Shinjisho. Tokyo University Press. 1991 ISBN4-01-077551-3

ENNES, Marcelo Alario. A construção de uma identidade inacabada: nipo-brasileiros no interior do Estado de São Paulo. São Paulo: Editora UNESP; 2001

GEERTZ, Clifford, O  Saber Local. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997

GONÇALVES, Eduardo Batista. O complot amarelo: Representações do imigrante japonês na Imprensa Paraense 1938 – 1945. (TCC – apresentado ao Departamento de História da UFPA – Campus Belém, para obtenção do título de Bacharel e Licenciatura Plena em História), 2000. Mimeo.

GOSSO, Yumi. Principais interesses e atividades dos estudantes nikkeis da área metropolitana de Belém e proximidades. Estudo feito sob encomenda da Associação Cultural Nipo-brasileira de Belém. Belém, Produção independente. 1997. 26 pg. (Mimeo.)

HANDA, Tomoo. O imigrante japonês: História de sua vida no Brasil. São Paulo: T.A. Queiroz: Centro de Estudos Nipo-brasileiros, 1987. Pg. 595 – 724

KOYAMA, Tsuguo. Japoneses na Amazônia: alguns aspectos do processo de sua integração sócio-cultural. In: SAITO, Hiroshi, BUTSUGAN, Sumi (colab.) [et al.] A presença japonesa no Brasil. São Paulo, T A. Queiroz: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980

MARUOKA, Yoshio. 70 anos de imigração japonesa para a Amazônia (Baseado no livro comemorativo aos 60 anos da Imigração Japonesa para a Amazônia. Editado em Setembro de 1994). São Paulo. Editora Topan-Press Ltda. 2002

SILVA, Orlando Sampaio. O Japonês em Santa Isabel do Pará: Estudo Sócio-Cultural sobre Japonêses em uma área rural da Zona Bragantina. CERU: Centro de Estudos Rurais e Urbanos, série Cadernos, nº 11 - 1ª série. USP/Universidade de São Paulo. Setembro de 1978

 

PERIÓDICOS

Revista Made in Japan Edição: 64 Ano 6

TRABALHADORES. Publicação mensal em forma de fascículos produzidos pela Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo de Campinas. UNICAMP, 1989

 

DADOS DOS AUTORES

Manoel Alexandre Ferreira da Cunha

A gleba Cidapar: Novos Movimentos Sociais, in Terra Matura, Belém-PA: Paka/Tatu, 2002.

Hermenêutica e Paradigmas Antropológicos in HUMANITAS, Belém-PA: 2002.

Banditismo Social: Política e Utopia. Brasília-DF: UNB, 2000.

Professor Adj. IV do DEAN – UPPA.

Sócio da ABA.

Endereço: Tva. Enéas Pinheiro: 2757/102B. Belém-PA, cep: 66095140. Cunha@ufpa.br.

Telefone: 91 – 2763223/99859430.

 

Francisco Rodrigues da Silva Neto.

Graduado de História da UFPA

Tva. WE5 – Qd. P – Bl. 2 Apto. 102 – Conj. Estélio Maroja – Coqueiro, Belém-PA;

Cep: 67.130.180  e-mail: fneto21@hotmail.com

Telefone: 91- 2870160/ 91139611.



[1] Nascidos no Japão mas trazidos ainda pequenos e educados no Brasil. In: HANDA. Op. cit  A tradução literal desta palavra seria “meio nissei”, pois, tinham nascidos no Japão mas sua educação fora totalmente brasileira. Tradução minha.

[2] Considera-se aqui como formado em Japonês, aquele que concluiu o nível mais elevado existente na sua escola de Língua Japonesa, com o mínimo de rendimento médio ou acima deste. Ver GOSSO, Yumi. Op. cit.

[3] Respectivamente, arranjos florais, caligrafia tradicional japonesa, dobraduras em papel, dança folclórica japonesa para os antepassados, culinária. No ano de 2002 durante a Semana do Japão, a APANB oferecerá outros cursos como: Koto (uma espécie de cítara japonesa); Ayatsuri Ningyo (marionetes japonesas). Estes cursos ou oficinas não foram citados acima pelo fato de não serem comuns a todos os anos.

[4] A ida de nikkeis em busca de empregos no Japão, objetivando um acúmulo rápido de dinheiro e retorno ao Brasil. Nota minha.