Migração e Migrantes: Histórias de Mudanças

 

Migration and Migrants: Changes Histories

 

 

Laís M. Cardia[1]

 

 

RESUMO

 

Esta comunicação resulta de pesquisa realizada entre l996 e 98, com famílias de migrantes seringueiros e colonos, instalados na periferia urbana de Rio Branco, Estado do Acre. A investigação procurou entender como se constrói a especificidade de um segmento de ex-trabalhadores rurais inseridos em uma estrutura econômica e social urbana, e em que medida o movimento migratório,. intensificado nas décadas de 1970/80, forja uma dinâmica que revela sua verdadeira dimensão no mundo capitalista. O movimento migratório, responsável pelo esvaziamento do meio rural e o conseqüente engrossamento da população urbana em Rio Branco, vincula-se a fatores de ampliação da estrutura capitalista rumo à Amazônia. Esse processo determinou a reordenação de valores, papéis sociais e novos arranjos que permitissem (re)definir identidades, numa luta diária para que pudessem se integrar à realidade que se impunha. A falta de domínio de códigos culturais urbanos impede o processo de mobilidade ocupacional e frustra suas aspirações de ascensão social. O fato dos migrantes perceberem as mudanças, suas condições reais diante delas e o significado da migração, são fatores importantes na compreensão da nova situação.

 

Palavras-Chave: Migração, Migrantes, Seringueiros, Colonos, Antropologia Urbana

 

 

ABSTRACT

 

This communication results from a research realized between 1996 and 98, with rubber tappers migrants families, placed in the urban periphery of Rio Branco City, Acre State. The investigation attempted to understand how the specificity of an ex-rural workers segment inserted in a social-economical urban structure is constructed, and in what degree the migratory movement, intensified in the 1970/80 decades, forges a dynamics that discloses its real dimension in the capitalist world. The responsible migratory movement for emptying the rural medium and the consequent thickening of urban population in Rio Branco, is associated to capitalist structure enlargement factors that heads for Amazonia. This process established the values, social roles and new arrangements reorganization that allowed (re)define identities, in a daily fight for being able to integrate themselves in the imposed reality. The absence of urban cultural codes dominion hinders the occupational mobility process and frustrates their social ascension aspirations. Important factors for understanding the new situation are related to the changes perceived by migrants, the real conditions from now on and the meaning of migration.

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

            As questões ligadas ao fenômeno da migração no Brasil têm sido amplamente discutidas e analisadas nas últimas décadas, e esse interesse é resultado dos deslocamentos populacionais e suas conseqüências na transformação de estruturas sociais incapazes de absorver ou direcionar esses fluxos de forma adequada, favorecendo o aparecimento de “bolsões de miséria” nas zonas urbanas. Esses deslocamentos estão relacionados a duas ordens de fenômenos, a saber, a expansão do capitalismo industrial e a urbanização, estreitamente vinculados, responsáveis pelo acentuado processo de crescimento das cidades e de redistribuição de segmentos da população, com o conseqüente aprofundamento das desigualdades sociais locais e regionais.

            A migração evidencia problemas estruturais da sociedade nacional, porque exige a “participação” das populações nela envolvidos no processo produtivo urbano, organizado de formas diversas daquelas encontradas no meio rural. Os problemas se configuram na instabilidade dos migrantes, pela ausência das condições objetivas de vida urbana, e decorrem das poucas alternativas de sobrevivência oferecidas pelo sistema social. Eles rompem com uma realidade conhecida, com o seu cotidiano e isso se traduz nas idéias e concepções que têm das experiências vividas.

Este trabalho resulta de pesquisa realizada com famílias migrantes, seringueiros e colonos, instaladas no bairro Cidade Nova, periferia urbana de Rio Branco, Estado do Acre, Brasil. Procura entender como se constrói a especificidade de um segmento de ex-trabalhadores rurais, inseridos em uma estrutura econômica e social urbana, e em que medida o movimento migratório alterou os arranjos familiares, forjando uma dinâmica que revela sua verdadeira dimensão no mundo capitalista.

            Nas décadas de 1970-80 o Acre vive um processo de reordenamento de sua economia, até então baseada quase que exclusivamente no extrativismo. Os incentivos fiscais e o preço das terras foram fatores determinantes para a “invasão”, em ritmo acelerado de médios e grandes empresários do Centro-Sul do país. Esses empresários emprestam à região novas características econômicas, desde que começam a transformar seringais em empresas agropecuárias. Os seringueiros, tradicionais moradores e trabalhadores dos seringais se viram obrigados a “negociar” suas terras devido à pressão que foi sendo exercida sobre eles. Sem o seu meio fundamental de sobrevivência, passam a se dirigir para os Projetos de Assentamentos Dirigidos – PAD’s[2] – criados, inicialmente, para atender a essa população e, também, para a periferia de outros municípios do Estado, além de Rio Branco.

            Ao mesmo tempo, vindos da região Centro-Sul, começam a chegar colonos, muitos deles expulsos pela construção da Hidrelétrica de Itaipu, atraídos por propagandas governamentais que “vendiam” o Acre como sendo o local de fácil acesso à terra de excelente qualidade para o cultivo. Parte desse contingente foi assentado nos PAD´s e outra ficou à mercê de sua própria sorte deambulando pela cidade até que fosse resolvido seu destino.

            Os seringueiros abandonaram os projetos por não terem se adaptado ao novo estilo de vida, representado por uma nova ordem econômica, social e cultural. Os colonos vindos do Centro-Sul, de uma realidade sócio-econômica ainda mais diferenciada, aos poucos foram saindo também, pela falta de infra-estrutura e pelas péssimas condições de vida. Esse processo gerou, para esses dois segmentos populacionais, um duplo impacto. Primeiro, com a transferência para os PAD’s e depois quando foram obrigados a se deslocar para o centro urbano, contribuindo para acelerar a periferização da cidade e expondo os níveis de pobreza e exclusão social e política[3] a que foram submetidos.

            Naquele momento Rio Branco não possuía uma estrutura urbana que atendesse às necessidades mais urgentes dessa população. Questões como moradia, emprego, saúde e educação, básicas para qualquer grupo social, ali eram precárias e não atendiam a uma realidade que começava a se delinear.

            O movimento migratório responsável pelo gradativo esvaziamento do meio rural e o conseqüente engrossamento da população urbana em Rio Branco, deve ser entendido como parte do processo geral das migrações campo-cidade que têm caracterizado a vida nacional. Como tal, vincula-se a fatores de ampliação da estrutura capitalista rumo à Amazônia. Esse processo determinou o surgimento de uma expressiva mão-de-obra desqualificada[4] para o mercado de trabalho urbano que só encontra ocupação em atividades de baixa renda e pouco prestígio. Determinou, ainda, a reordenação de valores e papéis sociais no interior desses grupos e, conseqüentemente, novos arranjos que lhes permitissem re(definir) a identidade numa luta diária para que pudessem se integrar à realidade que se impunha. Essas estratégias referem-se a uma permanente busca para alcançar meios de sobreviver a um cotidiano que tem que estar, sempre, sendo reinventado (Cardia, 1998a).

            Assim, cumpre apreender aqui o movimento dentro das características específicas com que se realizou nas décadas de 70/80, ou seja, da expulsão dos seringueiros e colonos ligados à estrutura econômica do campo (economia familiar), definindo os não-lugares desses segmentos populacionais. Embora essas décadas sejam significativas de um processo intenso de esvaziamento do campo, na atualidade esses grupos continuam tendo suas vidas marcadas pela força do capital. O embate entre o capital e o trabalho continuam, assim como continuam a expropriação dos seringueiros e colonos e a substituição do homem pelo boi e pelas máquinas.

 

A IDEALIZAÇÃO DA VIDA URBANA

 

A falta de preparo e de qualificação para o exercício de funções mais complexas, a falta de domínio dos códigos culturais, além da falta de recursos que caracterizam a entrada de migrantes pobres no meio urbano, impedem o processo de mobilidade ocupacional e frustram suas aspirações de ascensão social. O fato dos migrantes perceberem as mudanças e suas condições reais diante delas e o significado da migração, são fatores importantes na compreensão da nova situação.

            As mudanças ocorridas nas estruturas familiares desse contingente populacional são entendidas como resultantes da pressão exercida pela sociedade global que desarrumou os seus referenciais tradicionais e indicou a direção das transformações que se processaram e das possibilidades que terão para se ajustar à uma nova ordem social.

            Um forte sentimento da diferença entre os naturais da cidade e os migrantes permeia o cotidiano desse segmento e indica, quase sempre, um domínio consciente do processo de mudança pelo qual passaram e ainda passam. Essa mudança, representa por eles como “vir prá cá” (cidade), embora forçada, significou o acesso a bens de consumo, conforto, lazer, educação e saúde. Contudo, essas imagens que tinham da cidade, como sendo uma referência melhor do que a que tinham no campo, são desfeitas pelo impacto da chegada e pelas contradições encontradas pelo não atendimento das expectativas e pelas frustrações daí decorrentes.

            A mudança significou, além das transformações nos códigos sócio-culturais e aquelas de ordem econômica, também a transposição de um espaço físico para outro, o que acarretou o rompimento de laços sociais, além dos desgastes psicológicos gerados pelas próprias exigências de adaptação ao novo meio social. Essa adaptação inclui a aquisição de nova identidade – novas formas de sociabilidade intra e extra familiar e a reformulação dos laços interpessoais. A referência passa a ser o antes e o depois e a mudança se caracteriza pela consciência de uma nova vida, diferente.

            A vida nos seringais e colônias faz parte de um passado que permanece na memória desses migrantes idealizado pelas facilidades que, em suas evocações imaginavam ter, pelo fato de serem ambientes que dominavam amplamente. Por outro lado, a cidade representa “(...) um não sei o quê da vida (...)”, uma profusão de imagens e situações que rompem com aquelas estruturas familiares, econômicas e culturais regularmente constituídas.

            Seus valores culturais continuam sendo redefinidos com base nos novos grupos de vizinhos e amigos compostos pelos seus “iguais” e, também, pelos “não iguais”, que estão fora do seu círculo de relações. A imagem da oposição rural/urbano se estende, agora, para uma projeção diferencial entre pobre/rico. Esse é o parâmetro da dimensão da situação que enfrentam e é ele que vai dar sentido ao seu lugar no mundo (Cardia, 1998b).

            No projeto de vida urbana desses migrantes se encontrava um tipo de estratégia, ideologicamente assegurada pelo trabalho, que lhes garantiria uma efetiva mobilidade sócio-espacial. O trabalho na construção civil e no comércio seria a frente que concretizaria esse projeto, mesmo não conseguindo dimensionar obstáculos como a competição. A realidade que se apresentou, onde requisitos se impuseram, reafirmou a sua condição de excluídos, pela ausência de qualificação:

 

“(...) eu queria um trabalho numa loja que eu sabia que tinha bastante.Eu achava que ia ser empregado, ganhar dinheiro e dar um futuro prá minha família. ... Não aconteceu nada. Todo lugar que eu ia não deixavam eu falar. Iam logo falando que não tinha vaga. (...) A cidade prá mim foi madrasta, que exemplo eu ia dar. Quando eu penso nisso sinto assim uma coisa de tristeza mesmo”.

 

            Essas palavras expressam uma forte crítica a sociedade que tem tratado seus pobres como se dela não fizessem parte. Como se não tivessem direitos. Os não-cidadãos.

            Fica claro que é através do trabalho que buscam não ser pobres. A pobreza e o pobre adquirem conotações negativas e, em oposição, as noções de trabalho e trabalhador oferecem uma dimensão positiva, apontada pelo significado moral que adquire o trabalho e, através do qual, ficam compensadas as desigualdades sociais instaladas na sociedade (Sarti, 1996). Daí a dificuldade que encontram esses sujeitos sociais para entender essa perversa contradição: como eles, sendo portadores do estatuto de trabalhadores, daqueles que estão, ou deveriam estar, na condição de ter acesso à garantia da sua subsistência são, exatamente, os que não têm direito a ela?

            Com a transposição para o meio urbano esses migrantes experimentaram as primeiras transformações na dinâmica doméstica. Pequenos proprietários rurais, ou trabalhadores assalariados, viviam na e da terra. O cotidiano dessas famílias era partilhado em sua totalidade e tinha como eixo central o trabalho, que era realizado por todos, resguardados os limites de idade e sexo. Às mulheres cabiam as atividades domésticas e aos homens – provedores – eram destinadas as tarefas mais pesadas ligadas ao preparo da terra e ao plantio e aquelas relacionadas à sua condição de “chefe de família” – garantia da autoridade, da “ordem” familiar e da hierarquia (do homem sobre a mulher, do mais velho sobre o mais novo). Enquanto permanecem nas áreas rurais, a vida transcorre dentro desses padrões. A perda da terra é a primeira e mais significativa ruptura imposta a essa dinâmica familiar.

            A ida para a cidade impõe uma reviravolta nessa estrutura. O impacto da desorganização inicial perdura ainda hoje, se revelando como elemento desarticulador das relações familiares e indica uma resistência aos novos padrões que não traduzem as formas de organização social e familiar existentes nos seringais e colônias. Por outro lado, os novos arranjos domésticos que vão se estabelecer, podem corresponder a uma rearticulação da economia de subsistência, ajustada às condições da vida urbana.

            Para essas famílias, tanto a (re)definição da identidade quanto a oportunidade de uma mobilidade social são fundadas na ideologia do sucesso que, por sua vez, é elaborada a partir das representações que têm de sua inserção na camada menos privilegiada da sociedade. Há, de certa forma, uma compreensão de que as condições de vida atuais foram geradas por mecanismos que as empurraram para a cidade e que determinaram a pobreza, no sentido mais amplo da negação da cidadania, mais do que apenas denunciar as carências econômicas. Entretanto, o sucesso está representado pelo trabalho que seria o resultado da capacidade pessoal de realização, do esforço de cada um, não importando os limites impostos pelas estruturas econômica e política que regem as relações urbanas.

            Certamente, os impedimentos de ordem material e simbólica existentes na cidade não só geram a instabilidade, na medida em que privam das oportunidades de ver a concretização de mudanças sócio-econômicas em suas vidas mas, também, criam a certeza das diferenças que são provocadas por uma sociedade desigual, que modifica seus projetos individuais e familiares.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARDIA, Laís M. Famílias migrantes: reordenamento e arranjo urbano. In Política e Trabalho, n. 14. João Pessoa: PPGS/UFPB, setembro, 1998a, pp. 35-47.

________.  Exclusão social de famílias migrantes: estratégias de sobrevivência urbana. João Pessoa: PPGS/UFPB, 1998b, 130 p. (Dissertação de Mestrado).

CASTEL, Robert. As armadilhas da exclusão. In BÓGUS, Lucia (org.). Desigualdade e a questão social. São Paulo: EDUC, 1997.

LARANGEIRA, Sonia M. G. Qualificação. In CATTANI, Antonio D. (org.). Trabalho e tecnologia – dicionário crítico. Petrópolis: Vozes, Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1997.

MARTINS, José de Souza. Exclusão social e a nova desigualdade. São Paulo: Paulus, 1997.

NASCIMENTO, Elimar P. Globalização e exclusão social: a crise de representação do futuro. Caxambu: XX Encontro Anual da ANPOCS,. Mimeo. 1996.

SARTI, Cynthia. A família como espelho. Um estudo sobre a moral dos pobres. Campinas: Autores Associados/FAPESP, 1996.



[1] Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social//Universidade Federal de Santa Catarina e Professora da Universidade Federal do Acre. E-mail: cbarbosa@floripa.com.br

[2] Esses Projetos foram implantados pelo INCRA – Instituto Nacional de Reforma Agrária, a partir de terras desapropriadas pelo Estado.

[3] A discussão sobre exclusão pode ser encontrada, entre outros, em Nascimento (1996), Castel (1997) e Martins (1997).

[4] Sobre essa questão, consultar Larangeira (1997).